02 Setembro 2006

o paradoxo.


Só podemos agora simular a orgia e a liberação, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vácuo, porque todas as finalidades da liberação já ficaram para trás, e o que nos preocupa, o que nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, de todas as formas, de todos os desejos.
Isso é o estado de simulação, aquele em que só podemos repetir todas as cenas porque elas já aconteceram - real ou virtualmente.
É o estado da utopia realizada, de todas as utopias realizadas, em que é preciso paradoxalmente continuar a viver como se elas não estivessem. Mas, já que o estão, e já que não podemos ter a esperança de realizá-las, só nos resta hiper-realizá-las numa simulação indefinida.
Vivemos na reprodução indefinida de ideais, de fantasmas, de imagens, de sonhos que doravante ficaram para trás e que, no entanto, devemos reproduzir numa espécie de indiferença fatal.
Quando as coisas, os signos, as ações, são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, sua origem e finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito.
Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo.
E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda.

A transparência do mal - ensaio sobre os fenômenos extremos, Jean Baudrillard
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